Quando falamos de inovação na construção civil, normalmente pensamos em novos materiais, sistemas estruturais ou métodos de execução. Mas um ponto vem ganhando cada vez mais peso: a forma como a obra é gerenciada, especialmente em sistemas construtivos industrializados, como o Light Steel Frame (LSF) e o Wood Frame.
Uma pesquisa da Unicamp deu um passo importante nessa direção ao desenvolver um modelo de aplicativo móvel para gestão de obras em LSF, mostrando como tecnologia e método podem caminhar juntos para tornar a construção mais eficiente e sustentável.
O Light Steel Frame (LSF) é um sistema construtivo industrializado, a seco, baseado em perfis leves de aço galvanizado. Em vez da alvenaria tradicional e das estruturas moldadas in loco, o LSF trabalha com componentes pré-fabricados e montagem em obra.
Alguns pontos-chave desse sistema:
é um método a seco, que dispensa o uso de água em etapas como estrutura, vedações e parte dos revestimentos;
reduz significativamente o desperdício de materiais em relação aos sistemas convencionais;
permite maior padronização, industrialização e previsibilidade de prazos.
Na prática, isso significa que o canteiro deixa de ser um lugar de “fabricação” e passa a ser um local de montagem. E isso muda a lógica de planejamento, logística de materiais, uso de equipamentos e gestão como um todo.
A pesquisa da Unicamp desenvolveu um modelo de aplicativo móvel com um objetivo claro: ajudar a gestão de obras em Light Steel Frame de forma simples, prática e aplicável à rotina do canteiro.
A proposta do app é oferecer um passo a passo estruturado de gestão, voltado para três objetivos principais:
diminuir perdas ao longo da execução;
aumentar a eficiência da obra, com etapas mais bem organizadas;
entregar mais valor para o cliente final, com melhor qualidade e previsibilidade.
Em vez de ser apenas um “checklist digital”, o modelo foi pensado para orientar processos de obra, conectando planejamento, sequência de atividades e controle em campo.
Para validar a proposta, o modelo do aplicativo foi testado em simulações de três obras reais, com participação direta de supervisores de obra, que avaliaram a usabilidade e a aplicabilidade das rotinas sugeridas.
O resultado apontado pela pesquisa foi claro:
o aplicativo é viável como ferramenta de apoio à gestão;
o modelo de uso foi considerado promissor pelos profissionais envolvidos;
o formato é facilmente adaptável para outros sistemas industrializados.
Um ponto interessante é que o estudo não ficou restrito ao LSF: os pesquisadores concluíram que o mesmo modelo pode ser aplicado também em obras em Wood Frame, outro sistema sustentável, baseado em estruturas de madeira pré-fabricadas, que segue a mesma lógica de industrialização e montagem.
O recado que essa pesquisa traz para a cadeia da construção é simples: não basta ter um sistema construtivo inovador, é preciso ter uma gestão à altura dessa inovação.
Em sistemas como LSF e Wood Frame:
o fluxo de materiais precisa ser muito bem planejado, para não haver falta nem excesso;
a sequência de montagem deve seguir uma lógica precisa, para não travar o canteiro;
a compatibilização entre projeto, fabricação e montagem é fundamental.
Ferramentas digitais, como o aplicativo estudado pela Unicamp, ajudam a transformar esse conjunto de exigências em rotina prática de campo, com:
checklists por etapa;
orientações claras para supervisores;
registro de informações que podem alimentar indicadores e melhorias contínuas.
Aqui na MMK, olhamos para esse tipo de inovação com um viés muito claro: como ela conversa com a realidade dos sistemas estruturais, fôrmas, escoramentos e acessos que dão suporte às obras?
Mesmo em sistemas industrializados e a seco, como o LSF e o Wood Frame, o canteiro continua precisando de:
apoios provisórios bem dimensionados em etapas de montagem;
andaimes e plataformas de acesso para trabalho em altura com segurança;
planejamento de fluxo de montagem que considere equipamentos, logística e segurança.
Um aplicativo de gestão bem construído para esses sistemas pode, por exemplo:
indicar o momento ideal de entrada de determinados equipamentos;
organizar a sequência de montagem para reduzir paradas e retrabalho;
registrar problemas recorrentes que podem ser prevenidos em obras futuras.
Ou seja, a digitalização da gestão não substitui a engenharia, ela potencializa o trabalho de quem projeta, especifica e executa fôrmas, escoramentos e estruturas.
Alguns aprendizados importantes que ficam da pesquisa da Unicamp:
Gestão digital deixou de ser opcional
A tendência é que mais obras, especialmente as que usam sistemas industrializados, passem a depender de ferramentas digitais de campo.
Aplicativos precisam ser simples e orientados a processo
Não adianta criar sistemas complexos que não funcionam no dia a dia do canteiro. A força do modelo estudado está na simplicidade da interface e na lógica de passo a passo.
Inovação sustentável exige método
Sistemas a seco, como LSF e Wood Frame, reduzem desperdício e consumo de água, mas só entregam todo o seu potencial quando a gestão acompanha o nível da tecnologia.
Fonte: Jornal da Unicamp